Desde que Narciso apaixonou-se por si mesmo ao ver, pela primeira vez, seu reflexo no lago, a brincadeira não parou mais. Muito tempo depois, no Renascimento, foi inventado o espelho, que permitia que as pessoas não só se vissem, mas que se flagrassem vendo umas às outras.
O espelho fatalmente deu origem aos “modos”, olhar-se virou um hábito, um exercício de consciência, o que vejo é o que sou? A sensação que temos é que no espelho controlamos nossa própria imagem, e nele sempre queremos parecer mais bonitos.
Os modos deram origem à moda, e a moda às vitrines e às passarelas. Sacramentou-se então a invenção moderna do ego, e enxergado o ego, somos outros. E todos enxergando seus próprios egos e os egos dos outros, temos a cultura do olho.
O olho explica todas as grandes invenções da história: a fotografia, o cinema, e, por último, a televisão. Ver-se não é mais novidade, espionar-se tampouco. Agora tudo está às claras, mas será que todo mundo se vê como deve ser visto? E o que será que deve ser visto?
Pra pirar tudo de vez, surgiu a internet. A princípio, uma ferramenta de pesquisa, e depois, a principal transformadora das relações sociais no mundo. As pessoas agora não se conhecem apenas no colégio, no trabalho, no clube e na igreja, elas se encontram na internet.
E a dona internet, que não é boba, organizou-as em “sites de convívio”, redes que exibem e catalogam as pessoas por gostos e afinidades. No Brasil, é tão comum ter uma ficha na polícia quanto uma ficha no Orkut, o mercadão municipal onde é possível ver, comprar e vender de tudo.
Taggeados, etiquetados e associados a infinitos grupos e comunidades virtuais, agora todo mundo sabe o que a gente vê, come, lê, e nossas fotos pessoais podem ser vistas e comentadas. A internet passa a ser um espelho, mas com a opção “censura”, e para o qual mostramos só o que queremos.
Mas mostramos, de alguma forma: há quem mostre tudo via webcam, mas há quem mostre literatura, política e jornalismo bom sendo feito em blogs. Há programas de rádio sendo reformulados em podcasts e o cinema se reconstruindo no YouTube.
Na web 2.0 produz-se conteúdo em toda parte, o tempo todo e para todos os gostos. Produz-se sozinho ou em grupo, e outros grupos podem editar o que produzimos. Há muita gente falando, escrevendo, passando informação pra frente e pra trás.
Com a chegada da banda larga aqui, em 2000, recursos como os de streaming se tornaram possíveis, mas ainda caminhavam com as lesmas e ficaram no meio do caminho. De lá pra cá melhorou, mas está longe de termos a velocidade ideal de internet, aquela que age pela gente: pensei e o site carregou.
Hoje, com razoável velocidade de conexão, a transmissão de vídeos não só se tornou viável, mas pode ser feita ao vivo. O sujeito liga a webcam e transmite de qualquer lugar seu próprio show. Sites como UStream, Live video, Yahoo Live!, Mogulus e Justin.TV possibilitam isso. Mas se você preferir, use o Qik e transmita direto do celular.
Essas possibilidades podem reformular o papel do telejornalismo e acelerar a produção caseira e artística de vídeos (pra pornografia é um prato cheio), e isso só tende a melhorar. Pro cinema, pras telecomunicações e pra TV, que já está, obrigatoriamente, tendo que se reinventar. E, um dia, será que… desaparecer?
A brincadeira do espelho deu certo e agora a questão não é mais como “mostrar”, mas sim como “preservar”. Não podemos esquecer que Narciso inebriado pela própria imagem definhou e morreu. A outra versão da história é: virou uma flor. E se assim for, melhor.

Estátua de bronze em homenagem a Alice através do Espelho, continuação de Alice no País das Maravilhas, ambos livros de Lewis Carroll, nos arredores do Guildford Castle (UK)